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Evento em homenagem a Muniz Sodré fala sobre cultura africana no Brasil

CARLA BASÍLIO - AGÊNCIA UFRJ DE NOTÍCIAS - PRAIA VERMELHA
agn2pv@reitoria.ufrj.br

O segundo dia da “Semana Muniz Sodré” abordou a questão da cultura afro-brasileira, tendo como base a obra Verdade Seduzida, de autoria do homenageado. O evento, que acontece até esta sexta-feira (20/4), no Salão Pedro Calmon, no campus da UFRJ na Praia Vermelha, contou com a presença dos professores Marcelo Paixão, do Instituto de Economia (IE), Regina Andrade, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), além do pós-doutor Dalmir Francisco, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o mestre de capoeira Camiseta.

A palestra foi iniciada pelo professor Marcelo Paixão, que relatou o problema do racismo como algo crônico, caso não haja uma mudança coletiva de pensamento. “Negros, índios e mestiços são considerados incapacitados desde o passado até hoje. Veja o caso do Haiti, Angola, Etiópia e outros países africanos”, analisou.

Segundo o docente, os brancos europeus representavam o futuro. “Quando a República se estabelecesse, o Brasil se livraria das pessoas de cores indesejadas, seja pela fome, pela pobreza, pelo alcoolismo, doenças etc”. Assim, acrescentou, “a nação seria tomada pelos caucasianos, como já proferira erradamente [o sociólogo] Gilberto Freyre”, citou.

Paixão afirmou ainda que o racismo é um mal ainda longe do fim. “Ande pelo Direito, pela Medicina, ou Economia, por todo campus só se vê pessoas com traços europeus. Dá-se ao bizarro caráter de normalidade. O ‘comum’ é o negro ocupar posições inferiores, seja profissional ou socialmente. Aquele que ocupa cargos altos é submetido a todo estranhamento e julgamento, até que volte ao lugar que lhe seja típico”, disse.

Por fim, o professor questionou a plateia sobre este fato ser um problema. “Na verdade, quem decide o que é ou não problema no Brasil? O racismo, a injustiça e a exclusão evidentes são velados por aforismos do tipo ‘Eu não sou racista. Tenho até amigo negro’ ou, ‘Racismo? O homem mais importante do mundo é negro! [referindo-se ao presidente norte-americano Barack Obama]’”, exemplificou, citando outras questões inseridas no pensamento popular.

O professor e pesquisador Dalmir Francisco falou sobre a construção do movimento negro no Brasil, lembrando que, até a abolição da escravatura, essas manifestações eram quase sempre clandestinas e de caráter radical. Além disso, o pós-doutor ressaltou a importância das obras de Sodré para a consolidação e dignificação da cultura afro-brasileira, “uma vez que seus livros foram escritos não para os negros, mas para todos”.

Já a professora Regina Andrade abordou o tema da religiosidade, tanto do homenageado como de toda a Bahia. Segundo ela, Muniz Sodré é uma pessoa religiosa e espiritualizada e, assim como os baianos, segue o tempo sentido e não contado. “Na Bahia, a sensação do tempo transcorrido se dá de forma diferente. Não se usa o relógio, mas os sentimentos, as sensações e a religião, sobretudo”, explicou.

Por fim, o mestre Camiseta prestou tributo ao sociólogo cantando e dançando uma música feita especialmente para a ocasião. Após os debates, houve também uma apresentação de roda de capoeira, exaltando a cultura afro-brasileira.



Publicado em:
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